quinta-feira, 10 de março de 2011

Giordano Bruno, Galileu Galilei, o heliocentrismo e a Inquisição


Como um prenúncio preocupante do que seria o século XVII para a cristandade, em 08 de fevereiro de 1600, o tribunal da Santa Inquisição condenava Giordano Bruno à morte. O « frade apóstata », « herético impenitente », « pertinaz e obstinado », morreria queimado aos 52 anos (os oito últimos passados nas prisões da Inquisição). Antes do pronunciamento da sentença, ele teria desafiado mais uma vez seus algozes, dizendo-lhes que temiam mais do que ele próprio a sentença que pronunciariam. Alguns dias depois, amordaçado, com a língua perfurada por um gancho, para parar de blasfemar, uma procissão conduziu-o à fogueira erguida no Campo dei Fiori, em Roma. Chegava ao fim o longo martírio do Nolano, o filósofo napolitano viajante que, nascido na pequena Nola, fazia questão de lembrar suas origens.
Seus primeiros embates com as autoridades eclesiásticas começaram no monastério de San Domenico Majore (em que lecionara Tomás de Aquino), onde ele se ordenou: questionador, insubordinado, leitor de livros proibidos… Frade dominicano desgarrado, tentou virar calvinista em Genebra, mas logo foi preso e excomungado, tendo que abandonar a cidade. Mais tarde, na Alemanha, seria também excomungado pelos luteranos. Era admirador confesso de Nicolau de Cusa, de resto, iconoclasta, a modéstia intelectual não era o seu forte. Em Toulouse, teria recusado a amizade de Francisco Sanchez, o filósofo cético português, dizendo ser "estupefiante que um tal asno se dê o título de doutor", todavia, mais do que uma demonstração de imodéstia, essa anedota corrobora o óbvio: Bruno não era um cético, apenas, para ele, a liberdade era uma condição de possibilidade do conhecimento. Profundamente anti-escolástico tornou-se, por conseguinte, marginal às universidades, e viveu pela Europa a fora da fama de sua memória prodígio. Chegou a inventar um método mnemotécnico baseado na combinatória proposta na Ars Magna de Raymond Lulle (Ramon Llull), do qual, apesar de discordar em vários pontos (notadamente, Bruno foi um grande crítico da noção de "quintessência"), admirava a ideia de um dispositivo, que auxiliasse, a memória, logo, o pensamento. Por causa desse interesse em Lulle – reputado alquimista, portanto representante de certo obscurantismo medieval, segundo os padrões do pensamento moderno – , e pela chamada "magia branca" – que na verdade, como explica Bruno, nada mais é que uma filosofia da natureza – ele sofreu perseguição, em seu tempo, e foi descreditado pela posteridade. Filósofo errante de país em país (Suiça, França, Inglaterra, Hungria, Alemanha…), uma espécie de gênio humanista de aluguel, publicando sua « filosofia nolana ». Esta, fruto refinado do ecletismo renascentista, congregava, na sua exigência de libertas philosophandi, os pré-socráticos, Platão, Aristóteles, filosofia helenística (epicuristas, estoicos, cínicos, céticos), Luciano, Plotino, literatura latina (Cícero, Lucrécio, Sêneca,), Hermes Trimegisto e a antiga sabedoria egípcia, Cabala, alquimia, cristianismo também, claro, e outras coisas mais de que era curioso – « …porque o seu desejo consiste mais em aprender, do que em ensinar, julgando-se mais apto para aquilo, do que para isto. » (Acerca do infinito, do universo e dos mundos). A complexa síntese desses interesses, sobretudo dentro da paisagem intelectual dogmática da época, rendeu a Bruno as seguintes classificações, cuja a pertinência é de difícil verificação, dado que até hoje o acesso às suas obras é limitado: panteísta, vitalista, materialista, atomista, sensualista, entre outras.
Em todo caso, grande entusiasta da teoria heliocêntrica copernicana, à qual acrescentara intuições geniais e importantes argumentos, como a concepção do universo infinito e da pluralidade dos mundos, embora seu longo e rocambolesco processo não tenha girado exatamente em torno de suas concepções científicas ou filosóficas – mas de passagens de suas obras que, da perspectiva jesuítica de seus acusadores, apresentavam um caráter blasfematório contra os dogmas da Igreja (negação da santíssima trindade, da imaculada concepção, etc.) –, pela coragem em afirmar suas ideias e pela recusa obstinada em retratar-se, Bruno tornou-se um verdadeiro mártir do pensamento livre e da revolução científica. De modo mais intuitivo e especulativo do que propriamente « científico » (no sentido moderno), como sublinham os historiadores da ciência, já que não apresentou um modelo matemático de suas ideias, ele foi de fato o grande revelador da revolução copernicana, consumando, segundo Koyré, a transição da concepção de um mundo fechado e finito (o da filosofia de Aristóteles e do modelo ptolomaico) para a de um universo aberto e infinito, que será a do pensamento moderno. (A.Koyré, Estudos de história do pensamento científico, ed. Forense, 1991, p.189.) E ainda que o pensamento de Bruno fosse sustentado por uma matriz epistêmica desertada pela posteridade científica e filosófica – ele se situaria exatamente no ponto de transição para o pensamento moderno – sua obra realizará seu desejo de que « os astros me tratem tal como à semente em relação ao campo, e ao campo em relação à semente, de maneira que apareça no mundo algum fruto útil e glorioso do meu labor, acordando o espírito e abrindo o sentimento àqueles que não têm luz de intelecto (…). » (Acerca do infinito, do universo e dos mundos, Epístola preambular, p.2).
Todos os livros de Giordano Bruno foram naturalmente postos no Index (Index librorum prohibitorum) do Santo Ofício e seu pensamento vigoroso, que causara tanta impressão nas cortes européias, relegado ao esquecimento, felizmente, sem um sucesso total. Ainda assim, apenas na época do pré-romantismo alemão, já no período que se constuma classificar de "crise da modernidade", o interesse pelo seu pensamento virá à tona.

Dezesseis anos mais tarde, a teoria heliocêntrica é declarada herética e teologicamente errada pelo Santo Ofício, o livro de Copérnico, Da Revolução dos orbes celestes (1543), é incluído no Index e proibi-se que se fale do heliocentrismo como realidade física. Mas, como o Tribunal não se pronunciara sobre o caráter científico da teoria nem proibira de a ela referir-se como hipótese matemática, o livro de Copérnico seria retirado do Index em 1620 com algumas censuras.

Gallieu diante do Tribunal da Inquisição, pintura do séc.XIX de J.-N. Robert Fleury.
É por essa altura que Galileu Galilei é convocado a Roma para prestar esclarecimentos sobre suas ideias diante do Tribunal presidido pelo mesmo Roberto Bellarmino, o jesuíta que, anos antes, havia interrogado Bruno na última fase de seu processo e também instruído o processo contra o sistema copernicano. Essa entrevista, num primeiro tempo, teve como resultado uma exortação do Tribunal para que Galileu abandonasse a teoria heliocêntrica e parasse de referir-se a ela. Como Galileu persistisse, suas obras foram, em seguida, censuradas. Ocorreu que durante sua estadia em Roma, o Papa Urbano VIII, bastante simpático ao sábio toscano, sugeriu-lhe que compusesse uma obra em que o sistema de Copérnico fosse imparcialmente confrontado ao sistema de Aristóteles. Muito embora, de temperamento diverso, estivesse longe de ser polemista ou provocador como Bruno, Galileu não soube fazer o que lhe pedira o Papa, compondo um diálogo sobre a mecânica em que o heliocentrismo era claramente avantajado e o geocentrismo e Aristóteles eram ridicularizados por um representante ínfimo. Ao ser publicado, em 1632 em Florença, o Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo (em italiano, Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo) causou rebuliço. Galileu logo perdeu a proteção de Urbano VIII – ele próprio acuado pelos Jesuítas e desagradado por reconhecer-se no infeliz personagem de Simplicius, o representante da física aristotélica – e mais uma vez teve que fazer face ao Tribunal. Doente, fraco, abandonado às feras, Gallileu foi condenado por ignorar a interdição anti-heliocêntrica de 1616, apesar de ter sido exortado uma primeira vez a segui-la. Tendo consentido a pronunciar a carta de abjuração prescrita por seus juízes, Galileu foi condenado à prisão perpétua, pena comutada por Urbano VIII em prisão domiciliar. O livro, obviamente, foi proibido, mas publicado na Holanda protestante, seguindo seu destino pela Europa.
A condenação de Galileu repercutiu na atitude de Descartes, então na Holanda, que em 1634 desiste de publicar o tratado O Mundo, em que vinha trabalhando há alguns anos e no qual tratava dessas questões decretadas heréticas, como as do infinito e do movimento da Terra. A prudência cartesiana, o desejo de viver e trabalhar em paz, longe das controvérsias escandalosas, levou-o a tomar como devisa o verso de Ovídio que diz : bene vixit, bene qui latuit…, isto é, « viveu bem aquele que viveu escondido ».
É bem verdade que, por mais que o personagem de Giordano Bruno seja fascinante em sua integridade radical, não é difícil admitir que a afirmação obstinada da sua liberdade, sua oposição enfurecida à autoridade arbitrária conduziu ao resultado negativo do seu aniquilamento precoce. Pode-se dizer, então, que uma vez prosseguindo com o combate pelo pensamento livre, felizmente que o confrontro direto com a Inquisição foi evitado pelos filósofos do século XVII, ainda que também perseguidos como hereges, tal Espinosa. Mas, por um lado, já no decorrer do século XVI, e paradoxalmente com a ajuda dos jesuítas e suas escolas, o perfil dos filósofos se transforma bastante no século XVII: a filosofia e o saber em geral já não se concentram entre os clérigos, indivíduos da sociedade civil, muitas vezes ocupados com outras atividades mundanas, também se ocupam dessas matérias e cada vez mais se organizam, independentemente das universidades ainda dominadas pelos religiosos, em associações promotoras do pensamento livre. Por outro lado, talvez trata-se também de temperamentos (para usar um termo da época) diversos produzindo filosofias distintas, tanto Bruno (o napolitano explosivo) quanto Espinosa (o marrano tranquilo por fora e inquieto por dentro) tinham uma verdadeira preocupação política, a questão do poder e da autoridade temporal estava muito presente para eles, ao passo que o desiludido Descartes desejava distância, não acreditava na possibilidade de transformar politicamente o mundo e concetrou sua ambição numa tarefa não menos hercúlea: fundar o pensamento moderno. De todo modo, a prudência diplomática cartesiana não foi capaz de livrá-lo de uma morte precoce, ainda que não violenta : morreu na corte da Rainha Cristina, em Estocolmo, aos 54 anos, de uma provável pneumonia. Por outro lado, Espinosa, talvez inaugure a figura de um martírio propriamente moderno dos pensadores demasiado originais : a doença, certa debilidade da saúde que transforma em enfermos justamente aqueles que tocam as feridas humanas – um tema que será de certa forma desenvolvido por Nietzsche e por Deleuze.

Nenhum comentário:

Postar um comentário